terça-feira, dezembro 22, 2009

Impermanência


Tudo tem o seu tempo determinado
e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
Há tempo de nascer e tempo de morrer;
Tempo de chorar e tempo de rir;
Tempo de abraçar e tempo de afastar-se;
Tempo de amar e tempo de aborrecer;
Tempo de guerra e tempo de paz.
É tempo de morrer 2009 para que 2010 chegue.
Que venha a paz.





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quarta-feira, dezembro 16, 2009

O louco, enquanto espera o seu horário.....


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim,somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.


Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.
O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera.. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas.. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos...
Na última quarta-feira, estávamos:1. Eu2. Um crioulinho muito bem vestido,3. Um senhor de uns cinqüenta anos e4. Uma velha gorda.Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
Ele ri, ..... ri muito, o meu psicanalista, e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- E você, não vai ter alta tão cedo...

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segunda-feira, dezembro 07, 2009

Quero saber qual a sua dor



Não me importa o que você faz para sobreviver.
Quero saber qual a sua dor e se você tem coragem de
encontrar o que seu coração anseia.


Não me importa saber sua idade.
Quero saber se você se arriscaria parecer com um louco por amor,
pelos seus sonhos, pela aventura de estar vivo.


Não me importa saber quais planetas estão quadrando sua lua.
Quero saber se você tocou o âmago de sua tristeza,
se as traições da vida lhe ensinaram, ou se omitiu por medo de sofrer.


Quero saber se você consegue sentar-se com as dores, minhas ou suas, sem se mexer para escondê-las, diluí-las ou fixá-las.


Quero saber se você pode conviver com a alegria, minha ou sua, se pode dançar com selvageria e deixar o êxtase preenchê-lo até o limite sem lembrar de suas limitações de ser humano.


Não me importa se a estória que você me conta é verdadeira. Quero saber se você é capaz de desapontar o outro para ser verdadeiro para si mesmo, se pode suportar a acusação da
traição e não trair sua própria alma.


Quero saber se você pode ser fiel e consequentemente fidedigno.
Quero saber se você pode enxergar a beleza mesmo que não sejam bonitos todos os dias, e se pode perceber na sua vida a presença de Deus.


Quero saber se você pode viver com as falhas, suas e minhas, e ainda estar de pé na beira do lago e gritar para o prateado da lua cheia… ? Sim?!


Não me importa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem.
Quero saber se você pode levantar depois de uma noite de pesar e
desespero, exausto, e fazer o que tem de fazer para as crianças.


Não me importa saber quem você é, ou como veio parar aqui.
Quero saber se você estará ao meu lado no centro do fogo sem recuar.


Não me importa saber onde, o que, ou com quem você estudou.
Quero saber o que sustenta o seu interior quando todo o resto desaba.
Quero saber se você pode estar só consigo mesmo e se verdadeiramente gosta da companhia que carrega em seus momentos vazios.


Feliz caminhada a todos…
Desejo que encontrem a coragem e sabedoria
para serem verdadeiros consigo mesmos.

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domingo, outubro 25, 2009

Somos matéria-energia


Assim, aos meus olhos a matéria
Tem conotações divinas
Você e eu, Eu e Tu
Somos mais do que matéria morta;
Participando, existimos
Na real natureza do Buda.

O deus triplo é a máxima instância
Ele é o poder criativo
De toda a matéria universal.
A prima causa deste mundo.
Ele se estende na eternidade
E se expande, é infinito;
É onisciente, consciente
De tudo que há para saber.

E também a matéria é infinita,
O espaço de todos os espaços.
O nome do tempo é eternidade-
Se não cortarmos em pedaços
Sua parte restrita pelo relógio
Para medir sua duração.
Herdamos muitas aptidões
De ancestrais distantes
Matéria-mente como unidade
É organísmico de verdade.

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quinta-feira, outubro 01, 2009

Dedim de Prosa

O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranqüila.
Em silêncio. Sem dar conselhos.
Sem que digam: "Se eu fosse você..."
Rubem Alves


- Tardi, Dotô. - Boa tarde. Sente-se. - Careci não. Ficu di pé, memo. - Sente-se para eu poder examinar. - O Dotô é quem manda. - Mas fale-me. O que está acontecendo? - Ai, Dotô! Mi dá umas dor di veiz in quandu. - Que dor? - Aqui, óia. Nu estromagu. Beeem lá nu fundinhu.- Forte? - As veiz.. Trasveiz é anssim ó, di mansinhu.- E o que você faz? - Tem veiz que eu cantu. Trasveiz eu vô pra cunzinha fazê um bolu.- Tem outra dor?- Tenhu, sim, Dotô. Aqui, ó. Pertu dus óio.- E essa é forte?- Também é forte não. Quandu ela dá eu cunversu cas vizinhas i passa. - Outra?- Tenho sim senhô. Aqui. Anssim, nu meio das custela, pareci nu coração. Dá uns apertu aqui, ó.- E você faz o que?- Tem veiz qui eu choru. Trasveiz eu ficu anssim, muitu da queta pra vê si passa.- E passa?- As veiz. Trasveiz eu vô pra pracinha.. Lá eu sentu num bancu vê as criança brincá prá esperá passá..- Você mora com alguém?- Moru não, Dotô. Sô sunzinha nessi mundão di Deus.- Não tem família?- Aqui tenhu não. Minha famia é todinha du interiô du sertão, pertinhu de Urandi, lá quasi im Minas. I vim sunzinha pra Sum Paulu tentá a vida. - E você faz o que?- Óia, Dotô. Eu já fiz um cadinhu di tudu nessa vida. Já trabaiei numa firma di limpeza, já cuidei di criança. Já trabaiei numa casa di genti rica. Agora eu trabaio cuma mocinha qui mais viaja qui fica im casa. Ela avua num avião di dia i di noiti. Aí eu ficu sunzinha..- Você mora com ela?- Moru sim, Dotô. Ela dexa eu drumi num quartinhu lá nus fundu da casa. - Sabe cozinhar?- Oxa si não! Cunzinhu muitu du bem! Coisa mais simpres anssim i coisa mais di genti chiqui.- Gosta de crianças?- Ô, seu Dotô. É as criaturinha mais anjinha qui Deus botô nu mundu!- Qual o seu nome mesmo? - Óia, Dotô. Eu num gostu muitu, mas a modi agrada a santa, minha mainha botô Crara.- Dona Clara. Eu sei o que a senhora tem.- Comu anssim, si o Dotô nem incostô im mim?- O que a senhora tem Dona Clara, chama-se solidão e é a causadora de toda essa tristeza. - I issu mata, Dotô?

- Ás vezes, sim. Mas, no seu caso bastam amigos, alguns remédios e um pouco de carinho.. Dona Clara. Vai parecer estranho e nem eu mesmo entendo porque estou fazendo isso, mas minha esposa está grávida e nosso segundo filho é para o mês que vem. Já temos uma menina. E até hoje é minha esposa que cuida de tudo. Porém, com o bebê pequeno precisamos de alguém que cuide da casa. Que tal ficar conosco?- Oxa si não! Óia, Dotô. Nunca fizeram issu pur mim não. Vixe! Vai sê coisa muitu da boa ficá cum oceis. I careci di morá lá, Dotô?- Sim. Temos um quarto vago, no apartamento. Podemos tentar por uns meses.O que acha?- Dotô. É anssim como tê famia, né?- Quase.- Dotô. Eu num vô mais sê sunzinha. Vixe! Deus lhi pague, Dotô, a modi qui carinhu anssim, nem mainha mi dava.- Vamos testar. Combinado?- Cumbinadu. Dotô. Careci di eu fazê uma pregunta.. Eu num vô mais senti essas dor? - Vamos combinar uma coisa? O dia que sentir essa dor você me procura.- Prá modi du senhô mi inxaminá?- Não. Prá modi nóis trocá dois dedinhu di prosa.
* Mais de 400 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão.* A maioria dos pacientes deprimidos que não é tratada irá tentar suicídio pelo menos uma vez, e 17% deles conseguem se matar. Com o tratamento correto, 70% a 90% dos pacientes recuperam-se da depressão. * Aproximadamente 2/3 das pessoas com depressão não fazem tratamento e dos pacientes que procuram o clínico geral apenas 50% são diagnosticados corretamente.* Segundo o último relatório da Organização Mundial de Saúde a depressão é mais comum no sexo feminino, afetando de 15% a 20% das mulheres e de 5% a 10% dos homens.
http://sandrapontes.com/?p=594

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quarta-feira, setembro 30, 2009

Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo

Preciso escrever sobre mim mesmo.
Eu sou meu laboratório.
A privacidade das suas experiências não é minha conhecida, exceto por revelações.
Não há ponte entre homem e homem.


Eu adivinho e imagino, empatizo e sei lá que mais.
Pois estranhos somos, e estranhos ficamos,
exceto algumas identidades em que eu e você nos juntamos.
Ou melhor ainda, onde você me toca e eu toco você,
quando a estranheza se faz familiar.

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